ONG reporta sequestros, agressões e até estupros de pessoas que aguardam asilo na América

A Human Rights First, organização americana dedicada a defesa dos direitos humanos, divulgou nesta terça-feira (22/06) um documento que traz à tona a situação de milhares de imigrantes impedidos de entrar ilegalmente nos Estados Unidos através da fronteira com o México, ou que já haviam conseguido entrar mas foram expulsas do país, e agora tem sido vitimas de crimes e mau tratos

Ao todo, calcula-se que apenas em 2021 já existam aproximadamente 3.300 imigrantes nestas circunstâncias, pessoas vindas de diferentes países, sobretudo de Honduras e El Salvador, que acabaram sendo “devolvidos” ao lado mexicano da fronteira, e agora aguardam no país vizinho o julgamento de seus processos de asilo nos EUA enquanto convivem com o perigo oferecido pelas gangues e pelos carteis de drogas do México.

“Um processo de asilo pode levar meses ou, em alguns casos excepcionais, até mesmo anos. Como estes imigrantes quase que em sua totalidade já chegam na fronteira apenas com as roupas do corpo e quase nenhum dinheiro, encontram-se em uma situação bem complexa, já que não conseguem entrar nos Estados Unidos, mas também não possuem condições de voltar a seus países de origem, muitas vezes porque estão fugindo da fome, desemprego e até perseguições politicas ou religiosas nos locais de onde vieram. Muitas vezes sem ter onde dormir, estas pessoas acabam sendo vítimas fáceis de criminosos no México” – apontou o Dr. Felipe Alexandre, advogado de imigração brasileiro/americano, que já defendeu centenas de pessoas que buscavam asilo ou refúgio nos EUA.

A polêmica ordem-executiva que concede aos agentes fronteiriços dos EUA o direito de barrar imigrantes na fronteira ou deportá-los do país, para que possam aguardar o resultado de seus processos de asilo fora de território americano, é chamada “Título 42”, e foi criada ainda no governo Trump. Com a chegada de Joe Biden ao poder, esperava-se que tal ordem fosse revertida. No entanto, ela foi mantida e continua a ser aplicada todos os dias na fronteira.

“A questão dos imigrantes ilegais é tradicionalmente um tema polêmico nos Estados Unidos, e tem se provado o primeiro grande desafio do governo Biden, que apesar de já ter adotado outras leis pró-imigrantes desde que iniciou seu mandato, em janeiro, mantem a linha dura na fronteira, onde mais de 400 mil imigrantes já foram detidos e expulsos apenas este ano, incluindo mais de 3.250 mil crianças estrangeiras que foram levadas para abrigos americanos quando tentavam entrar ilegalmente no país. Números impressionantes poucas vezes vistos na história dos Estados Unidos” – ressaltou o Dr. Felipe Alexandre, que também é fundador da AG Immigration, escritório americano especializado em direito imigratório e green cards.

O documento da Human Rights First traz dados alarmantes; enquanto aguardam no México o julgamento de seus pedidos de asilo pelas autoridades americanas, os imigrantes em questão tem sido vítimas de sequestro, estupros, agressões físicas e até tráfico humano, principalmente porque existem muitos cartéis de drogas e gangues na região da fronteira, especialmente na região de Tijuana, onde inclusive foi registrado, em 9 de março, um grande protesto pedindo acolhimento por parte do governo Biden.

“O relatório da Human Rights First deve fazer muito barulho nos próximos dias nos EUA, seja nas já estremecidas relações diplomáticas dos Estados Unidos com o México quanto na discussão das políticas imigratórias do país. Muito se fala da tão sonhada reforma imigratória na América, então creio que o que está acontecendo na fronteira do México com os Estados Unidos seja mais um importante capítulo nesta discussão que envolve não apenas os governantes do país, mas também a sociedade americana como um todo. Eu realmente acredito e espero que cheguemos a um consenso para continuarmos a fazer dos Estados Unidos um país de imigrantes, como sempre fomos” – pontuou novamente o Dr. Felipe Alexandre,